quarta-feira, 13 de agosto de 2008

rh+

Quando criança escreveu um poema para a avó na ocasião de sua morte. O poeminha simples era escrito com as mesmas letras garranchudas que puxara aos bilhetes da mãe; no caderno que o padrastro ganhara de brinde no escritório e lhe passara assim sem qualquer criatividade; com a caneta do pateta emprestada ao irmão mais moço – fruto de uma viagem à disneylândia da qual ele não participou por castigo pela tentativa de assassinato do gato da família, o Trovão (sob custódia da geladeira); na mesa de cozinha em azulejo e ferro que fora da tia-avó, concentrada no jardim de inverno da fazenda que o avô décadas antes comprara com o dinheiro da loteria.

Ao acaso de estar escrevendo ali, a sorte grande do avô outras duas vezes na loto da cidade, que sustentou a estadia das três irmãs e da avó na grandeza do Belo Horizonte, o científico e a faculdade de química e psicologia, os animados passeios no drive-in Xuá's, o motel com o segundo namorado, o feijão tropeiro no Lucas depois da bebedeira, a festança do primeiro casamento, a louça que até hoje faz parte do jogo de jantar da casa no Rio, o carro no qual conheceu o segundo marido, e a conta do parto do primeiro filho – da qual o segundo marido pagou somente a vacina, porque a criança, diferente da mãe, nascera RH+.

2 comentários:

Constanza disse...

adorei o feijão tropeiro e a louça da casa do Rio.
muito bom mesmo!

Anônimo disse...

E não é que o senhor foi me visitar, senhor Mielnik?!

Eu amei cada uma das palavras. Só senti pena por ser 2008, e não 2010.
Presenteie-nos

;)

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